Técnicas empregadas

Na publicação anterior eu vinha falando que estou tentando me desviar um pouco das técnicas de construção da figura humana. Bom, quando eu falo isso, quero dizer que estou buscando utilizar menos o boneco de palito, o manequim, o feijão, as caixas, etc. Mas isso não quer dizer que, ao tentar desenhar confiando mais no meu próprio olhar, outras técnicas não estejam sendo também empregadas.

Palito, Manequino, Feijãozinho e Caixinha, todos caras legais, que estou tentando não usar.

Acontece que ao deixar de lado certas “normas” de construção, estou me apoiando mais outros aspectos do desenho de observação, como os ângulos, o alinhamento, o espaço negativo, as formas e as relações de medidas entre elas. Ao longo da prática, senti que essa abordagem foi necessária no desenho cronometrado, quando se tem pouquíssimos minutos, as vezes segundos, para resolver determinada pose. E dessa maneira acredito ainda estar desenvolvendo um olhar pro desenho, que é menos analítico e mais gestual. (Novamente, não me entendam mal. Continuo usando e achando muito úteis todas as técnicas de construção da figura. Só estou guardando elas pra outros momentos, diferentes do exercício cronometrado. 🙂 )

O livro “Desenho de observação” aborda questões sobre esse processo de desenho gestual que vão ao encontro do meu pensamento. Nele, o autor Brian Curtis escreve que o gesto intuitivo do desenho se perde após o momento inicial de esboço, pois é quando começamos a deixar que a natureza analítica do nosso cérebro volte a agir.

“O pensamento racional é tanto inevitável quanto necessário, mas você deve limitar conscientemente sua interferência na proximidade das suas percepções iniciais. Você deve se esforçar pra começar com um novo olhar e resistir à tendência natural de se render a abstrações formulaicas para representar o que vê. Essas abstrações racionalizadas limitam sua flexibilidade mental e prejudicam sua tolerância para a complexidade de suas percepções. […] É preciso relaxar e resistir à tendência de definir os formatos emergentes e de se ater aos detalhes nas primeiras etapas. Quando se começa pelo formato reconhecível de um objeto, geralmente ele se baseia mais no que você pensa do que no que você vê.” (p. 42)

Quando li esse trecho do livro que me foi cedido pela Nane, achei que completa bastante a crítica que fiz ao meu próprio aprendizado em retrospectiva no post anterior, quando disse que o conhecimento técnico me travou no desenho.

Mas então, se não tem manequim nem boneco de palito, como eu tenho construído meus estudos da figura? Pra começar, busco quebrar um pouco essa necessidade de começar o desenho sempre pela cabeça. Dependendo da pose, quando ela está completamente visível, até acontece, mas muitas vezes começo desenhando as formas, curvas ou ângulos que chamam a atenção do meu olhar primeiro. A partir daí, vou traçando relações prestando atenção aos ângulos dos membros e às formas que surgem das relações entre eles. Medindo a figura pelo olho, sem o auxílio do lápis, minha percepção fica focada em questões como até onde vai o braço e o antebraço em relação ao tronco, até onde vai a perna, qual é a relação entre o alinhamento da cabeça, do tronco, da pélvis e dos pés? Nesse momento, o conhecimento formal do que eles chamam de “Body Landmarks” ajuda bastante. Me desculpem, pois não sei a tradução desse termo pro português, mas podemos chamar de “Marcos Corporais”. Alguns dos mais importantes são o fim do pescoço, as clavículas, o esterno, a caixa torácica, e os ossos do quadril. O canal ProkoTV tem um ótimo vídeo sobre isso, em inglês, no entanto. Mas clica lá na legenda automática que dá pra ter uma ideia geral!

Imagens do arquivo do Croquis Cafe. As linhas vermelhas podemos chamar de “linha de ação”, mas pra mim é só a linha que chama mais a atenção no gesto. Os preenchimentos em azul são as formas que chamam a atenção e as linhas pontilhadas e traçadas na horizontal e vertical mostram alinhamentos interessantes.

Quando a figura está numa pose mais ereta, se assemelhando mais à representação da figura humana que nosso cérebro está habituado, observar os membros fica bem mais simples. Já quando a figura está em posições bastante incomuns, a gente simplesmente dá um tilt! Por onde começar? Bom, quando eu não tenho muito tempo (poses entre 15 segundos a 2 minutos), apelo pro desenho gestual mesmo, tentando traçar as mesmas relações entre as partes do corpo que mencionei acima. Mas, em poses de até 5 minutos tento fazer um estudo da forma geral do corpo.

Primeiro traço um contorno da figura, prestando atenção na forma abstrata que ela gera. Depois, dentro dessa forma, defino a figura traçando as relações entre os membros. Essa foi uma dica que eu aprendi lá no Croquis Cafe mesmo! Dentre os vídeos com poses de referência tem uma série só de dicas de desenho onde eles explicam esses macetes. Eu indico darem uma olhada no “Drawing Complex Poses” (Desenhando Poses Complexas).

E quando temos um corpo numa pose ainda mais incomum, como um escorço exagerado? Aí é hora de frear o cérebro de vez! Num dos vídeos do canal Love Life Drawing, chamado “Foreshortening Made Easy” (Simplificando o Escorço), os artistas Kenzo e Maiko demonstram bem isso. Eles ainda explicam que por sabermos que uma perna é bem mais comprida que um pé, por exemplo, temos severas dificuldades em desenhar somente o que vemos e tentamos corrigir a figura tendo como base o que sabemos sobre as proporções do corpo humano. No entanto, ao desenharmos uma paisagem, conseguimos fazer escorço porque são formas abstratas. Eles resolvem o problema propondo o exercício de pensarmos a figura em escorço como uma paisagem, assim nos focamos mais nas formas e menos no objeto em si. Essa é outra das técnicas que tenho usado pros meus estudos do desenho da figura.

E é isso, pessoal! Acho que falei tudo que tinha pra falar sobre esse meu novo hábito do estudo da figura humana e a meta dos 20 minutos diários. Sinto que pra mim tem feito uma grande diferença principalmente pra evitar aqueles dias de apagão, que a gente acaba passando sem desenhar nada, sabe? Mas ainda tenho um longo caminho a percorrer! Por enquanto tá somando quase dois meses de estudos, e eu estou super empolgada pra ver meus resultados daqui a uns seis meses ou um ano. Nesse meio tempo, vou compartilhando com vocês! Ah, no meu Twitter tenho postado os estudos diariamente, quem quiser acompanhar é @joyce_carmo. 🙂

A todos que leram essa série de posts até aqui, meu muito obrigada!
Se tiver qualquer coisa que vocês queiram perguntar ainda sobre esse assunto, novamente os comentários estão em aberto!

Um abraço e até mais ver!

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Sobre Ferramentas

Olá pessoal, como vão vocês? Tem aí pouco mais de duas semanas que eu não dou as caras aqui pelo blog, um sumiço inesperado pra todos nós. Eu tive que passar por um exame médico recentemente que não correu muito bem e me exigiu um afastamento forçado de todas as atividades. Somente pelo meu Twitter compartilhei informações sobre o ocorrido. Felizmente fui medicada, já estou me recuperando e com isso volto aos desenhos, ao blog e à partilha das minhas experiências.

Enquanto estive acamada, confesso que não tive cabeça nenhuma pra pensar em conteúdo, mas gostaria que pudéssemos continuar a discussão da prática consistente e do exercício do desenho de observação, que é ao que venho me atendo mais ultimamente. Minha amiga e vizinha de blog, Nane, fez um comentário super enriquecedor sobre a experiência dela com desenho da figura humana na última publicação aqui do Caixola e, gentilmente, me permitiu utilizá-lo como base pra desdobrar mais algumas discussões sobre esse tema. Vamos dar uma olhadinha no que ela falou:

Joy, muito bom você ter iniciado essa prática do estudo cronometrado. Confesso que da vez que tentei, não tive tanta disciplina e perseverança que você está tendo ao longo desses meses. Embora não tivesse sido com modelos nus, a experiência de desenho cronometrado que mais me ajudou a desenvolver o olhar pra anatomia foram aqueles feitos durante as aulas da universidade.

Já procurei tentar desenhar as pessoas que vejo em ônibus, lugares públicos, etc. Foi um exercício interessante, pois temos o elemento surpresa do tempo – nesses lugares não sabemos quanto tempo o nosso modelo vai ficar ali dando sopa pra ser desenhado. Além do mais, ele pode estar se movendo o tempo todo! rs Uma coisa que me atrapalha, no entanto, é timidez de desenhar nesses lugares.

Legal você ter chamado atenção também para o cuidado da faixa etária do Croquis Cafe. Para aqueles seus seguidores menores de idade, recomendo fazer um apanhado de poses da internet ou de revistas (que pode ser armazenado num arquivo de computador, ou numa pasta física), sortear 10, e usar o cronômetro do celular para temporizar os estudos.

A primeira coisa que gostaria de falar é sobre a disciplina. No vídeo abaixo o Dr. Drauzio Varella fala sobre a Preguiça no contexto do exercício físico, mas eu acho que existem alguns pontos ali com os quais podemos traçar paralelos com a nossa prática e por isso trouxe essa informação aqui. No discurso dele, chama a atenção quando ele diz que “o exercício é contra a natureza humana”. O nosso cérebro gosta de economizar energia e nós não fazemos nada que vai contra o que ele entende como conforto, a não ser que a gente se imponha conscientemente a tal. Então, às vezes é necessário forçar a barra mesmo. Falar que vai fazer e fazer, sem criar qualquer empecilho pra contornar a situação. E por que eu tô falando isso? Porque uma coisa que acho super importante ressaltar é que, ao menos pra mim, pular essa parte de “escolher o que desenhar” é fundamental pra combater essa preguiça e o sentimento de resistência e procrastinação. Eliminar esses gatilhos de distração são um elemento ímpar pra conseguirmos manter o propósito e perseverar, a meu ver.

Tendo isso em vista, vamos voltar ao uso de nu artístico no estudo do desenho da figura humana. Bom, no meu caso, a opção pelo Croquis Cafe foi bastante natural, no intuito de driblar todo o processo de escolha do objeto de estudo. Eles tem um volume de produção bastante considerável já, logo, minha tarefa consiste simplesmente em abrir o canal, pegar o vídeo de número X e desenhar pelo tempo dado. Na próxima sessão pegarei o vídeo de número X-1 e repetirei o processo uma vez a cada dia. Não tenho maiores problemas com eles, óbvio, pois sou maior de idade e não tenho tanto pudor de observar as pessoas nuas pelo vídeo. Outro ponto pelo qual optei por estudar assim é porque a roupa é um elemento a mais “no caminho” do meu estudo. É um elemento importante e tem que ser aprendido, sim, mas é também uma distração em alguns casos. Quando tem um modelo vestido, vou me pegar pensando em dobras, caimento e tipo de tecido, e não é nesses aspectos que quero me focar, mas sim na forma, fluidez e balanço da figura humana. E ainda assim, lá no canal tem algumas sessões em que os modelos acabam portando objetos, adereços e fantasias, o que enriquece e dificulta muito o estudo. Mas isso sou eu, Joyce, e a minha prática e objetivos.

Se você, leitor, por qualquer motivo não quiser usar os modelos nus, existem outras opções que também oferecem exercícios cronometrados sem que precise passar pela fase da “escolha”. Dando uma passada nos meus guardados resgatei alguns links pra compartilhar aqui:

New Masters Academy

Esse primeiro é uma playlist no YouTube criada pelo canal da escola virtual New Masters Academy. Com a mesma proposta do Croquis Cafe, são exercícios em vídeo de pessoas posando, porém vestidas com roupas de academia. Com somente 15 vídeos disponíveis na lista, o recurso é bastante limitado se comparado ao Croquis Cafe, que tem alimentação semanal, mas acho válido pra um contato inicial com a proposta do exercício de figura humana cronometrado.

As próximas indicações seguem todas um mesmo modelo. São sites com bancos de imagens que exibem de maneira sortida com base na configuração inicial de filtro e tempo que o usuário faz. Você pode definir, por exemplo, só exibir modelos masculinos, femininos, nus ou vestidos e ainda escolher quantas poses e por quanto tempo vai desenhá-las. São eles:

SketchDaily Referências

QuickPoses

Line of Action

Por fim, a coisa do estudo de rua, esse é um nível muito acima pra mim e admiro muito quem faz. Existem tantas variáveis nesse arranjo que chega a me intimidar! É um desafio para o qual sinto que ainda preciso me preparar muito, mas encorajo fortemente quem quiser fazer, pois só há ganhos! Acredito que o exercício cronometrado em casa, ajuda bastante no preparo pra esse tipo de desafio, então é um ponto extra pra colocarmos essas coisas em prática, que acham?

Ufa, rendeu! Fiquei muito contente porque só com o comentário da Nane, deu pra falar mais um bocado de coisa nova sobre esse assunto, muito obrigada! Espero que vocês estejam gostando das discussões sobre o estudo de desenho. Comentários? O blog está de braços abertos, vou ficar muito feliz em recebê-los!

Nos vemos na semana que vem, até lá!

O hábito de estudar

Um dos objetivos que tracei para o ano de 2018 foi começar a estudar o desenho da figura humana de forma mais consistente. Achar que meu desenho está engessado e perceber uma grande dificuldade em desenhar certas poses foram alguns dos motivos que me levaram a tomar essa decisão.

O problema é que nós somos chatos. Só queremos fazer as coisas que achamos legais e tudo dentro da zona de conforto, sabe como é? Por exemplo, a gente senta pra estudar desenho, vai lá no banco de imagens, passa 40 minutos pra escolher aquela foto com um cara fortinho com pose de super herói e depois passa 60 minutos ou mais desenhando só o mesmo cara! E aí, se reconheceu? Pois é. Se não se reconheceu, meus parabéns!

Bárbaro – foto de Marcus J. Ranum, disponível em mjranum-stock.deviantart.com

O negócio é que mesmo que você tenha se reconhecido ali em cima, fique feliz, pois ainda há esperança! Como dizem, reconhecer um “problema” é o primeiro passo pra promover uma mudança. Mas se você não tem a menor ideia do que fazer pra mudar esse “mal hábito”, vou te contar o que tem funcionado pra mim com o estudo do desenho de figura humana.

Há algum tempo descobri um canal do YouTube chamado Croquis Cafe. Eles são um grupo de pessoas dedicadas a criar material de referência para criação artística e disponibilizam de graça muitos recursos. No caso dos vídeos que tenho utilizado, funcionam assim: cada um deles tem uma duração média de 20 a 22 minutos, com modelos posando em nu artístico (às vezes fantasiados também) e um cronômetro que vai contando o tempo que você tem pra desenhar cada pose. Cada sessão tem 10 poses, sendo cinco de 1 minuto, quatro de 2 minutos e uma de 5 minutos.

Exercício que fiz no dia 07/06, sessão nº 283 no Croquis Cafe

Eu sei que a princípio o conceito pode assustar. “Como diabos vou conseguir desenhar alguém em 1 minuto?” Mas acredite em mim, não há nada que o ser humano não se adapte, principalmente quando ele realmente deseja e tem disciplina pra tal. Num capítulo do podcast gringo “Art Side of Life”, o artista Wouter Tulp falou sobre o processo de aprendizagem e sobre como as pessoas subestimam o poder da prática consistente. Ele afirma que mesmo com 10 minutos de prática por dia, é possível ver uma grande mudança ao longo do tempo, se houver compromisso, consistência e perseverança.

É claro que se você está começando agora com o desenho de figura humana e tem poucas noções de tudo (linha, formas, anatomia, proporção, perspectiva, etc) terá mais dificuldade pra pegar o jeito do que alguém que já desenha há mais tempo. Mas não desista! Conforme continuamos firmes na prática é possível ver como fica mais fácil perceber que a cada sessão seu olhar está mais treinado a buscar as formas e linhas que ajudam a representar aquela gestualidade, sem necessariamente ter que destrinchar o desenho todo. E nesse sentido o tempo cronometrado ajuda muito, pois estimula você a buscar as formas e linhas que realmente vão representar aquela pose/modelo, sem se apegar muito aos detalhes.

Exercício que fiz no dia 07/05, sessão nº 314 no Croquis Cafe

Uma coisa que vale a pena mencionar é que mesmo diante da prática diária do desenho, ainda que você esteja se limitando à observação, continuam existindo os famosos “dias ruins” e, quer saber? Faz parte. Todos nós temos esses bloqueios. Um dia ruim de desenho não significa que você está ficando pior. O ideal nessa hora é contornar a frustração pra retomar a prática no dia seguinte.

Um último aviso geral, muito importante, aliás. O Croquis Cafe é um site de referências para criativos onde modelos estão posando em nu artístico. No geral os modelos tentam posar cobrindo as genitálias, até porque os vídeos estão no YouTube. De acordo com as diretrizes do site, são permitidos vídeos com nudez, desde que sejam para propósitos artísticos ou educacionais. Mesmo assim acho que é algo digno de menção, pra que entrem lá avisados de que o conteúdo é recomendado para quem tem acima de 18 anos. Se você não quiser usar os vídeos de referência, eles também disponibilizam um arquivo fotográfico dos modelos nesse link aqui, mas eu recomendo muito a utilização do exercício com cronômetro.

Bom, eu tenho usado o Croquis Cafe diariamente como aquecimento pro dia de estudos e trabalho, ou simplesmente como meu estudo principal, em dias mais atarefados nos quais não tenho conseguido tirar um tempo pra desenhar.

E aí, que tal inserir esses exercícios na sua rotina também? Se você se animar, conta pra gente nos comentários como tem sido sua experiência!

Um abraço e até a semana que vem!

Art & Fear

Em Outubro de 2016, quando falei sobre minha última mudança de residência, comentei que estava lendo um livro intitulado “Art & Fear: Observations on the Perils (and Rewards) of Artmaking” (em tradução livre, algo como, Arte e Medo: Observações sobre os Perigos (e Recompenças) da Arte, ou da criação artística). Agora, quase dois anos depois, finalmente terminei de ler.

Esse livro foi como um abraço pra mim em diversos momentos. Embora não contenha na sua ficha catalográfica o termo “auto-ajuda”, ele traz discussões que, sim, nos ajudam, a compreender as questões que concernem o fazer artístico de forma que é praticamente impossível não se identificar com o conteúdo em maior ou menor grau. De autoria de David Bayles e Ted Orland (dois fotógrafos), Art and Fear se divide em duas partes, a primeira dedicada a definir onde os problemas residem e a segunda dedicada a explorar a relação entre a criação e os meios externos (o mundo exterior, a academia, escola, faculdade, etc).

Algumas pessoas podem se perguntar, o que eu vi de tão bom nesse livro. Eu vi explicações plausíveis, vindas de pessoas que entendem de perto os problemas vivenciados pelo meio, de coisas que eu sinto com relação ao meu trabalho, e consegui compreender a razão de muitos dos meus comportamentos como, por exemplo, não terminar alguns trabalhos, procrastinar, medo de me expor, me comparar com outros e tantas outras posturas nocivas que assumimos por vezes até sem perceber.

Respostas definitivas pra todos os problemas do meio, isso certamente o livro não tem. Mas ele oferece ótimas colocações pra que qualquer pessoa que queira se dedicar à criação artística consiga sair do “bloqueio”, partindo do pressuposto de que arte é uma habilidade que pode ser polida e adquirida com disciplina e tempo, e que não há nada hoje que nos impeça de executarmos nosso melhor trabalho.

Acho que o cultivo de uma mentalidade positiva é muito importante, vivo falando a esse respeito pras outras pessoas, outros colegas artistas, mas quando se trata de mim mesma, deixo de praticar muitas das coisas que falo. Nesse sentido, aprender a perceber esses comportamentos prejudiciais, é o primeiro passo pra que possamos aplicar uma mudança real e começar a cultivar bons hábitos, e esse livro foi ótimo pra mim nesse aspecto.

Infelizmente, não existe versão do livro em português. Na Amazon Brasil você encontra cópia física e ebook, e edições em inglês e alemão.

Se interessou? Eu recomendo muito essa leitura! Se você chegar a ler, ou se já leu, comenta aí o que achou, se o livro te ajudou e como ajudou! Vou adorar ouvir a experiência de vocês.

Um abraço e até a próxima

Steven e o Biscoito Gatinho

Olá, pessoal!

Nas últimas semanas o blog esteve meio parado por conta de vários problemas com meu computador. Agora o PC voltou, mas tá meio capenga. Não tá sendo muito legal desenhar digitalmente aos moldes que tô acostumada. Mesmo assim, tenho tocado alguns trabalhos freelance e estudos do lado de cá. Não consigo me afastar da mídia digital por muito tempo, hehe.

Outro dia, enquanto assistia um episódio de Steven Universo lá do começo da série, comecei a rabiscar uma cena na qual o Steven tenta fazer sua pedra brilhar comendo Biscoitos Gatinho. Achei super engraçado e decidi fazer minha própria versão, como estudo.

Scan do meu sketchbook

O negócio é que logo percebi que teria problemas (principalmente com o formato) pra dar continuidade a esse estudo no sketchbook. Então levei pro digital e enquanto eu tava lá no Photoshop retrabalhando o rascunho, percebi que tinha algumas questões bacanas que podiam ser observadas sobre o pensamento estrutural do desenho.

A primeira coisa que observei, foi o uso de formas na estrutura. Muitas pessoas ignoram essa etapa de aprender a desenhar formas tridimensionais no plano da folha. Isso é um erro, pois entender como essas formas se comportam no espaço, em relação à perspectiva, escorço, etc, auxilia muito na hora de desenvolver os desenhos. Eu não domino esse assunto, claro, afinal perspectiva é um dos meus calcanhares de Aquiles, principalmente no que diz respeito ao desenho de cenários. No entanto, não ignoro a importância desses conceitos e estou sempre revisitando-os e tentando incorporá-los nos meus desenhos.

Pensando com formas tridimensionais

Na imagem acima procurei mostrar basicamente como meu pensamento se desenrolou: a cabeça do personagem é uma esfera e saber como dividir esse objeto tridimensional ajuda ao direcionar sua rotação. Os membros são como cilindros e, ao compreender como eles funcionam no espaço fica um pouquinho mais fácil entender o escorço de braços e pernas, por exemplo. O tórax, pélvis, mãos e dedos, refrigerador e até o Biscoito Gatinho que ele está segurando podem ser simplificados com caixas e paralelepípedos. No caso do Biscoito Gatinho, que tem uma forma orgânica, o pensamento é de como se você estivesse desenhando a forma em um bloco de isopor e recortando o excesso em volta. 🙂

A partir do raciocínio acima, eu procurei inserir alguma coisa de perspectiva no meu desenho (sim, isso é muito difícil pra mim, PQP!). Vocês podem observar ali, aproximadamente em 1/3 da folha a linha do horizonte, e o meu ponto de fuga está mais distante da cena (fora da folha) pra aumentar o campo de visão e não provocar muitas distorções nas formas do meu desenho. Tendo isso como base, redefini a pose do Steven e ajustei as proporções como um todo.

Enquanto inseria os detalhes no Steven, percebi que o Biscoito Gatinho ia fazer uma linha tangente com a manga da camiseta. Tangentes costumam ser problemáticas no desenho de linhas, porque podem atrapalhar a percepção do expectador sobre o que está na frente e o que está no fundo. Por conta disso retrabalhei aquela mão, e ficou assim:

A partir daí foi só finalizar as linhas e partir pras cores. Aliás, pras cores eu defini um tom de amarelo predominante que seria a base do meu céu de fim de tarde, e fui tentando manter todas as cores base o mais amareladas possível. Como a minha luz era quente com predominância de amarelos e laranjas (o Sol/pôr do Sol) decidi trabalhar as sombras com um tom mais frio de roxo. E ficou assim:

E por fim, a imagem do desenho que me inspirou a fazer essa ilustração:

Eu tentei inserir bastante de mim nesse desenho, usando como base mesmo mais a situação/cenário do que fazer uma “cópia” do que eu via. Foi um estudo bem legal, na verdade, e espero que gostem de ter visto um pouco dos pensamentos que percorri pra chegar ao resultado final, desde o rascunho base.

E também acho legal ressaltar a importância de registrar ideias, mesmo que toscamente. Em uma outra oportunidade eu já falei sobre isso aqui (também era um desenho de Steven Universo), mas acho importante bater na tecla, hahaha! E por fim, é uma boa ideia de estudo pra você que tá aí sentado dizendo que não sabe o que desenhar. Pega uma imagem legal do seu desenho/filme favorito e faz um estudo em cima. Garanto que dá pra aprender muita coisa. Que tal?

É isso! Já me alonguei bastante nesse post.

Até a próxima!

Feito, não perfeito

O artista Jake Parker publicou em suas redes sociais ontem um vídeo muito inspirador, chamado “Feito, não perfeito”. Foi algo que eu sinto que precisava ouvir e acho que muitas outras pessoas gostarão de ouvir, por isso traduzi o texto do vídeo pra português pra torná-lo mais acessível. 🙂

“Feito, não perfeito.

Eu quero que você repita esse mantra: feito, não perfeito.
Concluir algo é muito mais importante do que ter algo que é perfeito, mas inconcluído.
Uma das melhores formas de se de aprender a fazer algo é simplesmente fazendo-o.
Se você quer desenhar quadrinhos, vá desenhar quadrinhos.
Se você quer ilustrar um livro, vá ilustrar um livro.
Se você quer ser um concept artist para filmes, comece a desenhar personagens e ambientes para um filme de animação fictício.
O importante é que você faça algo e conclua.
O projeto finalizado provavelmente será ruim, mas não é isso que importa. O que importa é você ter a habilidade de pegar uma ideia e desenvolvê-la do começo ao fim.
Se você se preocupar com perfeição ou em ser bom, daqui a um ano você vai odiar qualquer coisa que fizer perfeitamente agora.
Você não vai gostar porque seguiu em frente e melhorou.
Então porque se pressionar a ser perfeito agora se você sabe que naturalmente será melhor no futuro?
O mundo quer e precisa de pessoas que concluem coisas.

Então lembre-se que uma parte de se tornar um artista fantástico é ter a habilidade de concluir algo.”

Jake Parker – traduzido por Joyce Carmo com autorização do autor.

Mr. Jake Parker (Tumblr) – Finished not Perfect
Jake Parker Art (Facebook)

Trocando em miúdos, precisamos nos focar muito mais no processo de fazer e concluir ciclos do que na qualidade desse resultado. A qualidade vem com o tempo, com a repetição, com a assimilação de novas técnicas e coisas que teremos habilidades de reproduzir ao longo do aprendizado. Mas só vamos aprender fazendo! Não tem tutorial mágico que vá te ensinar a desenhar, se você mesmo não sentar e desenhar uma porção de coisas pra aprender.

Então vambora estudar e fazer mais coisas, e coisas acabadas!

Até a próxima! 🙂

Brushes do Kyle T. Webster

No desenho digital mais recente publicado no meu Instagram, uma colega daqui (a Mari Netto) comentou sobre como a pintura parecia mídia tradicional. Só depois que vi o comentário percebi que tenho experimentado um monte de coisas novas nos meus processos de acabamento digital, mas como estive ausente do blog por um tempo, deixei de falar a respeito.

No fim das contas, eu nunca sei se esses assuntos são de interesse da maioria, já que normalmente os posts sobre mídias tradicionais parecem ser os mais apreciados e visitados do meu blog. De toda forma, gostaria compartilhar hoje com vocês um pouco sobre os brushes para Photoshop de um artista chamado Kyle Webster.

A loja de brushes do Kyle 🙂

Esse cara (muito talentoso, por sinal) se dedica a criar e comercializar pacotes de brushes que simulam mídias tradicionais. Do lápis 2B à tinta óleo, ele tem brushes de várias mídias, incluindo técnicas de acabamento com nanquim e marcadores permanentes. Pra quem gosta de trabalhar no digital mas está em busca de efeitos mais parecidos com as mídias tradicionais, aconselho darem uma olhada.

Eu já pude experimentar os seguintes: Gouache Mini Set, Animator Pencil, Real Watercolors, Spatter Bot, Wet and Wild, Mr Natural Brush e o Ultimate Drawing Set. Dentre os pacotes disponíveis para venda alguns inclusive são freebies, ou seja, gratuitos, mas a maioria é paga e o custo é em dólares.

Nesse de ontem eu usei o Ultimate Drawing Set pra linhas e o Real Watercolor nas cores.

Nesse usei o Wet and Wild pra fazer as sombras.

Pessoalmente sou apaixonada pelo conjunto de gouache e de aquarela. Os demais acabo usando eventualmente pra rascunhar ou fazer arte final, embora ultimamente esteja preferindo trabalhar linhas no Manga Studio mesmo. O Wet and Wild (um dos freebies disponíveis) é uma versão de teste do Real Watercolors e vale muito a pena pra sentir mais ou menos como funcionam os brushes dele.

Esse foi quase todo pintado unicamente com o Gouache Mini Set

Enfim, não sei mesmo quantos de vocês têm interesse pelo assunto, mas espero que a dica seja útil em algum ponto. Eu recomendo muito os brushes do Kyle! 🙂

Até a próxima!