Técnicas empregadas

Na publicação anterior eu vinha falando que estou tentando me desviar um pouco das técnicas de construção da figura humana. Bom, quando eu falo isso, quero dizer que estou buscando utilizar menos o boneco de palito, o manequim, o feijão, as caixas, etc. Mas isso não quer dizer que, ao tentar desenhar confiando mais no meu próprio olhar, outras técnicas não estejam sendo também empregadas.

Palito, Manequino, Feijãozinho e Caixinha, todos caras legais, que estou tentando não usar.

Acontece que ao deixar de lado certas “normas” de construção, estou me apoiando mais outros aspectos do desenho de observação, como os ângulos, o alinhamento, o espaço negativo, as formas e as relações de medidas entre elas. Ao longo da prática, senti que essa abordagem foi necessária no desenho cronometrado, quando se tem pouquíssimos minutos, as vezes segundos, para resolver determinada pose. E dessa maneira acredito ainda estar desenvolvendo um olhar pro desenho, que é menos analítico e mais gestual. (Novamente, não me entendam mal. Continuo usando e achando muito úteis todas as técnicas de construção da figura. Só estou guardando elas pra outros momentos, diferentes do exercício cronometrado. 🙂 )

O livro “Desenho de observação” aborda questões sobre esse processo de desenho gestual que vão ao encontro do meu pensamento. Nele, o autor Brian Curtis escreve que o gesto intuitivo do desenho se perde após o momento inicial de esboço, pois é quando começamos a deixar que a natureza analítica do nosso cérebro volte a agir.

“O pensamento racional é tanto inevitável quanto necessário, mas você deve limitar conscientemente sua interferência na proximidade das suas percepções iniciais. Você deve se esforçar pra começar com um novo olhar e resistir à tendência natural de se render a abstrações formulaicas para representar o que vê. Essas abstrações racionalizadas limitam sua flexibilidade mental e prejudicam sua tolerância para a complexidade de suas percepções. […] É preciso relaxar e resistir à tendência de definir os formatos emergentes e de se ater aos detalhes nas primeiras etapas. Quando se começa pelo formato reconhecível de um objeto, geralmente ele se baseia mais no que você pensa do que no que você vê.” (p. 42)

Quando li esse trecho do livro que me foi cedido pela Nane, achei que completa bastante a crítica que fiz ao meu próprio aprendizado em retrospectiva no post anterior, quando disse que o conhecimento técnico me travou no desenho.

Mas então, se não tem manequim nem boneco de palito, como eu tenho construído meus estudos da figura? Pra começar, busco quebrar um pouco essa necessidade de começar o desenho sempre pela cabeça. Dependendo da pose, quando ela está completamente visível, até acontece, mas muitas vezes começo desenhando as formas, curvas ou ângulos que chamam a atenção do meu olhar primeiro. A partir daí, vou traçando relações prestando atenção aos ângulos dos membros e às formas que surgem das relações entre eles. Medindo a figura pelo olho, sem o auxílio do lápis, minha percepção fica focada em questões como até onde vai o braço e o antebraço em relação ao tronco, até onde vai a perna, qual é a relação entre o alinhamento da cabeça, do tronco, da pélvis e dos pés? Nesse momento, o conhecimento formal do que eles chamam de “Body Landmarks” ajuda bastante. Me desculpem, pois não sei a tradução desse termo pro português, mas podemos chamar de “Marcos Corporais”. Alguns dos mais importantes são o fim do pescoço, as clavículas, o esterno, a caixa torácica, e os ossos do quadril. O canal ProkoTV tem um ótimo vídeo sobre isso, em inglês, no entanto. Mas clica lá na legenda automática que dá pra ter uma ideia geral!

Imagens do arquivo do Croquis Cafe. As linhas vermelhas podemos chamar de “linha de ação”, mas pra mim é só a linha que chama mais a atenção no gesto. Os preenchimentos em azul são as formas que chamam a atenção e as linhas pontilhadas e traçadas na horizontal e vertical mostram alinhamentos interessantes.

Quando a figura está numa pose mais ereta, se assemelhando mais à representação da figura humana que nosso cérebro está habituado, observar os membros fica bem mais simples. Já quando a figura está em posições bastante incomuns, a gente simplesmente dá um tilt! Por onde começar? Bom, quando eu não tenho muito tempo (poses entre 15 segundos a 2 minutos), apelo pro desenho gestual mesmo, tentando traçar as mesmas relações entre as partes do corpo que mencionei acima. Mas, em poses de até 5 minutos tento fazer um estudo da forma geral do corpo.

Primeiro traço um contorno da figura, prestando atenção na forma abstrata que ela gera. Depois, dentro dessa forma, defino a figura traçando as relações entre os membros. Essa foi uma dica que eu aprendi lá no Croquis Cafe mesmo! Dentre os vídeos com poses de referência tem uma série só de dicas de desenho onde eles explicam esses macetes. Eu indico darem uma olhada no “Drawing Complex Poses” (Desenhando Poses Complexas).

E quando temos um corpo numa pose ainda mais incomum, como um escorço exagerado? Aí é hora de frear o cérebro de vez! Num dos vídeos do canal Love Life Drawing, chamado “Foreshortening Made Easy” (Simplificando o Escorço), os artistas Kenzo e Maiko demonstram bem isso. Eles ainda explicam que por sabermos que uma perna é bem mais comprida que um pé, por exemplo, temos severas dificuldades em desenhar somente o que vemos e tentamos corrigir a figura tendo como base o que sabemos sobre as proporções do corpo humano. No entanto, ao desenharmos uma paisagem, conseguimos fazer escorço porque são formas abstratas. Eles resolvem o problema propondo o exercício de pensarmos a figura em escorço como uma paisagem, assim nos focamos mais nas formas e menos no objeto em si. Essa é outra das técnicas que tenho usado pros meus estudos do desenho da figura.

E é isso, pessoal! Acho que falei tudo que tinha pra falar sobre esse meu novo hábito do estudo da figura humana e a meta dos 20 minutos diários. Sinto que pra mim tem feito uma grande diferença principalmente pra evitar aqueles dias de apagão, que a gente acaba passando sem desenhar nada, sabe? Mas ainda tenho um longo caminho a percorrer! Por enquanto tá somando quase dois meses de estudos, e eu estou super empolgada pra ver meus resultados daqui a uns seis meses ou um ano. Nesse meio tempo, vou compartilhando com vocês! Ah, no meu Twitter tenho postado os estudos diariamente, quem quiser acompanhar é @joyce_carmo. 🙂

A todos que leram essa série de posts até aqui, meu muito obrigada!
Se tiver qualquer coisa que vocês queiram perguntar ainda sobre esse assunto, novamente os comentários estão em aberto!

Um abraço e até mais ver!

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Desenvolvendo o Olhar

A gente já viu no post passado que o cérebro atua de uma maneira que visa poupar nossas energias. No comportamento do dia a dia, isso pode influenciar em deixarmos de fazer coisas que sabemos ser importantes pra gente, como exercícios, mas esse comportamento também tem a ver com o desenho e como a gente aprende a desenhar.

Uma das características mais marcantes do nosso cérebro é o reconhecimento de padrões. É o que ele busca fazer o tempo inteiro com tudo à nossa volta no intuito de agilizar nossa comunicação com o mundo. No vídeo “How to Draw EVERYTHING”, o artista Jake Parker fala que isso influencia no modo como interpretamos algo ao desenhar, pois o cérebro e o olho estão travando uma briga constante. O primeiro quer buscar a representação mais rápida para aquele objeto, enquanto o segundo é como uma câmera, enviando as imagens diretamente para o primeiro interpretá-las. E é isso que torna o desenho tão difícil.

Ao lado de Jake Parker, mas falando mais sobre o desenho de figura humana, temos os artistas Kenzo e Maiko, do canal Love Life Drawing, comentando que aprendemos desde muito cedo na vida como deve ser representada a estrutura de uma figura humana e por isso o cérebro tem dificuldades em se acostumar a pensar no que é pouco familiar quando estamos estudando o desenho de pessoas.

A figura ereta de frente é a representação mais usual de estudo, a qual somos apresentados desde cedo, portanto, desenvolve-se mais naturalmente. Quando a figura apresenta-se em ângulos pouco usuais ou bastante contraída em sua forma, temos dificuldade em desenrolar o desenho

Deixando de lado as citações para retomar novamente a minha experiência com o estudo de desenho, eu percebi ao longo de um tempo que o acúmulo de conhecimento técnico e formal não me ajudou tanto quanto deveria, e vou tentar explicar porque fazendo uma breve retrospectiva do meu histórico como estudante.

O desenho é algo que me acompanha desde a primeira infância e lá na minha adolescência, eu já desenhava relativamente bem por observação. Eu fazia ótimas cópias dos meus personagens favoritos! Mas quando houve o boom dos animes e mangás no Brasil, entre as décadas de 1990 e 2000, e as bancas se encheram de revistas de “Como Desenhar Mangás”, comecei a pensar que essa era a forma certa pra que eu pudesse aprender a criar meus próprios desenhos. E aí eu me cerquei de “tutoriais”.

Mini Me – enquanto a maioria das meninas de 13 anos a minha volta compravam Capricho, eu comprava toneladas de revistas de “Como Desenhar”

O que aconteceu nos anos seguintes foi que eu não conseguia desenhar um personagem sequer sem medir as tais oito cabeças de proporção, ou seguir todas aquelas “regras” de criação de personagens. Tudo tinha que ser naquela estrutura ou eu travava. Todo esse conhecimento técnico me engessou.

Não me levem a mal, conhecimento técnico e teórico são de suma importância. Mas ainda recentemente, nos meus primeiros exercícios do Croquis Cafe, me pegava tentando aplicar algumas dessas técnicas de estruturação do desenho aos modelos e muitas vezes, no decorrer da prática, percebi que eles acabam contribuindo pouco, senão nada nos exercícios que venho fazendo. E mais, isso me levou a perceber que ao me apoiar demais em “regras de como fazer”, estou deixando de lado muito da minha própria observação e expressão, usando as ferramentas que me foram dadas por outros, ao invés de resolver do meu próprio jeito. Notei que ao me cercar demais de informações, estou perdendo a chance de realmente ver o objeto sendo observado.

Se a gente colocar aqui uma coisa completamente nova, algo que o seu cérebro nunca viu e não vai saber dar o nome, uma coisa que não é nem esfera, nem cubo, nem cone nem cilindro, muito menos humano, você acha que conseguiria observar e reproduzir as características desse algo? É esse exercício que eu estou tentando fazer hoje no desenho da figura humana. Me despir um pouco do conhecimento técnico acumulado, voltando ao começo pra me apoiar um pouco mais no meu próprio olhar.

O maior problema é a dominância do cérebro sobre o olho. Você vê um ser humano, ou um agrupamento de formas abstratas?

Uma das coisas que eu percebo é que em tempos de internet, o acesso a tudo é tão fácil que temos a tendência de pesquisar “como fazer” antes mesmo de ter tentado ao menos uma vez por conta própria. Isso até tem um lado bom: talvez seja mais fácil começarmos a aprender qualquer coisa hoje do que tenha sido há 20 anos, quando não tínhamos tanto conhecimento à um clique. Mas ao mesmo tempo essa disponibilidade de material nos traz um alerta: será que não estamos nos soterrando em excesso de informação, nos cercando de tutoriais de “como fazer” e deixando um pouco de lado nossa prática, o desenvolvimento do nosso próprio olhar, percepção e sensibilidade pro desenho?

Hoje fico por aqui deixando vocês com essa reflexão. E aí, concorda, discorda? Manda ver nos comentários!

A gente se encontra de novo na semana que vem, até lá!

Sobre Ferramentas

Olá pessoal, como vão vocês? Tem aí pouco mais de duas semanas que eu não dou as caras aqui pelo blog, um sumiço inesperado pra todos nós. Eu tive que passar por um exame médico recentemente que não correu muito bem e me exigiu um afastamento forçado de todas as atividades. Somente pelo meu Twitter compartilhei informações sobre o ocorrido. Felizmente fui medicada, já estou me recuperando e com isso volto aos desenhos, ao blog e à partilha das minhas experiências.

Enquanto estive acamada, confesso que não tive cabeça nenhuma pra pensar em conteúdo, mas gostaria que pudéssemos continuar a discussão da prática consistente e do exercício do desenho de observação, que é ao que venho me atendo mais ultimamente. Minha amiga e vizinha de blog, Nane, fez um comentário super enriquecedor sobre a experiência dela com desenho da figura humana na última publicação aqui do Caixola e, gentilmente, me permitiu utilizá-lo como base pra desdobrar mais algumas discussões sobre esse tema. Vamos dar uma olhadinha no que ela falou:

Joy, muito bom você ter iniciado essa prática do estudo cronometrado. Confesso que da vez que tentei, não tive tanta disciplina e perseverança que você está tendo ao longo desses meses. Embora não tivesse sido com modelos nus, a experiência de desenho cronometrado que mais me ajudou a desenvolver o olhar pra anatomia foram aqueles feitos durante as aulas da universidade.

Já procurei tentar desenhar as pessoas que vejo em ônibus, lugares públicos, etc. Foi um exercício interessante, pois temos o elemento surpresa do tempo – nesses lugares não sabemos quanto tempo o nosso modelo vai ficar ali dando sopa pra ser desenhado. Além do mais, ele pode estar se movendo o tempo todo! rs Uma coisa que me atrapalha, no entanto, é timidez de desenhar nesses lugares.

Legal você ter chamado atenção também para o cuidado da faixa etária do Croquis Cafe. Para aqueles seus seguidores menores de idade, recomendo fazer um apanhado de poses da internet ou de revistas (que pode ser armazenado num arquivo de computador, ou numa pasta física), sortear 10, e usar o cronômetro do celular para temporizar os estudos.

A primeira coisa que gostaria de falar é sobre a disciplina. No vídeo abaixo o Dr. Drauzio Varella fala sobre a Preguiça no contexto do exercício físico, mas eu acho que existem alguns pontos ali com os quais podemos traçar paralelos com a nossa prática e por isso trouxe essa informação aqui. No discurso dele, chama a atenção quando ele diz que “o exercício é contra a natureza humana”. O nosso cérebro gosta de economizar energia e nós não fazemos nada que vai contra o que ele entende como conforto, a não ser que a gente se imponha conscientemente a tal. Então, às vezes é necessário forçar a barra mesmo. Falar que vai fazer e fazer, sem criar qualquer empecilho pra contornar a situação. E por que eu tô falando isso? Porque uma coisa que acho super importante ressaltar é que, ao menos pra mim, pular essa parte de “escolher o que desenhar” é fundamental pra combater essa preguiça e o sentimento de resistência e procrastinação. Eliminar esses gatilhos de distração são um elemento ímpar pra conseguirmos manter o propósito e perseverar, a meu ver.

Tendo isso em vista, vamos voltar ao uso de nu artístico no estudo do desenho da figura humana. Bom, no meu caso, a opção pelo Croquis Cafe foi bastante natural, no intuito de driblar todo o processo de escolha do objeto de estudo. Eles tem um volume de produção bastante considerável já, logo, minha tarefa consiste simplesmente em abrir o canal, pegar o vídeo de número X e desenhar pelo tempo dado. Na próxima sessão pegarei o vídeo de número X-1 e repetirei o processo uma vez a cada dia. Não tenho maiores problemas com eles, óbvio, pois sou maior de idade e não tenho tanto pudor de observar as pessoas nuas pelo vídeo. Outro ponto pelo qual optei por estudar assim é porque a roupa é um elemento a mais “no caminho” do meu estudo. É um elemento importante e tem que ser aprendido, sim, mas é também uma distração em alguns casos. Quando tem um modelo vestido, vou me pegar pensando em dobras, caimento e tipo de tecido, e não é nesses aspectos que quero me focar, mas sim na forma, fluidez e balanço da figura humana. E ainda assim, lá no canal tem algumas sessões em que os modelos acabam portando objetos, adereços e fantasias, o que enriquece e dificulta muito o estudo. Mas isso sou eu, Joyce, e a minha prática e objetivos.

Se você, leitor, por qualquer motivo não quiser usar os modelos nus, existem outras opções que também oferecem exercícios cronometrados sem que precise passar pela fase da “escolha”. Dando uma passada nos meus guardados resgatei alguns links pra compartilhar aqui:

New Masters Academy

Esse primeiro é uma playlist no YouTube criada pelo canal da escola virtual New Masters Academy. Com a mesma proposta do Croquis Cafe, são exercícios em vídeo de pessoas posando, porém vestidas com roupas de academia. Com somente 15 vídeos disponíveis na lista, o recurso é bastante limitado se comparado ao Croquis Cafe, que tem alimentação semanal, mas acho válido pra um contato inicial com a proposta do exercício de figura humana cronometrado.

As próximas indicações seguem todas um mesmo modelo. São sites com bancos de imagens que exibem de maneira sortida com base na configuração inicial de filtro e tempo que o usuário faz. Você pode definir, por exemplo, só exibir modelos masculinos, femininos, nus ou vestidos e ainda escolher quantas poses e por quanto tempo vai desenhá-las. São eles:

SketchDaily Referências

QuickPoses

Line of Action

Por fim, a coisa do estudo de rua, esse é um nível muito acima pra mim e admiro muito quem faz. Existem tantas variáveis nesse arranjo que chega a me intimidar! É um desafio para o qual sinto que ainda preciso me preparar muito, mas encorajo fortemente quem quiser fazer, pois só há ganhos! Acredito que o exercício cronometrado em casa, ajuda bastante no preparo pra esse tipo de desafio, então é um ponto extra pra colocarmos essas coisas em prática, que acham?

Ufa, rendeu! Fiquei muito contente porque só com o comentário da Nane, deu pra falar mais um bocado de coisa nova sobre esse assunto, muito obrigada! Espero que vocês estejam gostando das discussões sobre o estudo de desenho. Comentários? O blog está de braços abertos, vou ficar muito feliz em recebê-los!

Nos vemos na semana que vem, até lá!

O hábito de estudar

Um dos objetivos que tracei para o ano de 2018 foi começar a estudar o desenho da figura humana de forma mais consistente. Achar que meu desenho está engessado e perceber uma grande dificuldade em desenhar certas poses foram alguns dos motivos que me levaram a tomar essa decisão.

O problema é que nós somos chatos. Só queremos fazer as coisas que achamos legais e tudo dentro da zona de conforto, sabe como é? Por exemplo, a gente senta pra estudar desenho, vai lá no banco de imagens, passa 40 minutos pra escolher aquela foto com um cara fortinho com pose de super herói e depois passa 60 minutos ou mais desenhando só o mesmo cara! E aí, se reconheceu? Pois é. Se não se reconheceu, meus parabéns!

Bárbaro – foto de Marcus J. Ranum, disponível em mjranum-stock.deviantart.com

O negócio é que mesmo que você tenha se reconhecido ali em cima, fique feliz, pois ainda há esperança! Como dizem, reconhecer um “problema” é o primeiro passo pra promover uma mudança. Mas se você não tem a menor ideia do que fazer pra mudar esse “mal hábito”, vou te contar o que tem funcionado pra mim com o estudo do desenho de figura humana.

Há algum tempo descobri um canal do YouTube chamado Croquis Cafe. Eles são um grupo de pessoas dedicadas a criar material de referência para criação artística e disponibilizam de graça muitos recursos. No caso dos vídeos que tenho utilizado, funcionam assim: cada um deles tem uma duração média de 20 a 22 minutos, com modelos posando em nu artístico (às vezes fantasiados também) e um cronômetro que vai contando o tempo que você tem pra desenhar cada pose. Cada sessão tem 10 poses, sendo cinco de 1 minuto, quatro de 2 minutos e uma de 5 minutos.

Exercício que fiz no dia 07/06, sessão nº 283 no Croquis Cafe

Eu sei que a princípio o conceito pode assustar. “Como diabos vou conseguir desenhar alguém em 1 minuto?” Mas acredite em mim, não há nada que o ser humano não se adapte, principalmente quando ele realmente deseja e tem disciplina pra tal. Num capítulo do podcast gringo “Art Side of Life”, o artista Wouter Tulp falou sobre o processo de aprendizagem e sobre como as pessoas subestimam o poder da prática consistente. Ele afirma que mesmo com 10 minutos de prática por dia, é possível ver uma grande mudança ao longo do tempo, se houver compromisso, consistência e perseverança.

É claro que se você está começando agora com o desenho de figura humana e tem poucas noções de tudo (linha, formas, anatomia, proporção, perspectiva, etc) terá mais dificuldade pra pegar o jeito do que alguém que já desenha há mais tempo. Mas não desista! Conforme continuamos firmes na prática é possível ver como fica mais fácil perceber que a cada sessão seu olhar está mais treinado a buscar as formas e linhas que ajudam a representar aquela gestualidade, sem necessariamente ter que destrinchar o desenho todo. E nesse sentido o tempo cronometrado ajuda muito, pois estimula você a buscar as formas e linhas que realmente vão representar aquela pose/modelo, sem se apegar muito aos detalhes.

Exercício que fiz no dia 07/05, sessão nº 314 no Croquis Cafe

Uma coisa que vale a pena mencionar é que mesmo diante da prática diária do desenho, ainda que você esteja se limitando à observação, continuam existindo os famosos “dias ruins” e, quer saber? Faz parte. Todos nós temos esses bloqueios. Um dia ruim de desenho não significa que você está ficando pior. O ideal nessa hora é contornar a frustração pra retomar a prática no dia seguinte.

Um último aviso geral, muito importante, aliás. O Croquis Cafe é um site de referências para criativos onde modelos estão posando em nu artístico. No geral os modelos tentam posar cobrindo as genitálias, até porque os vídeos estão no YouTube. De acordo com as diretrizes do site, são permitidos vídeos com nudez, desde que sejam para propósitos artísticos ou educacionais. Mesmo assim acho que é algo digno de menção, pra que entrem lá avisados de que o conteúdo é recomendado para quem tem acima de 18 anos. Se você não quiser usar os vídeos de referência, eles também disponibilizam um arquivo fotográfico dos modelos nesse link aqui, mas eu recomendo muito a utilização do exercício com cronômetro.

Bom, eu tenho usado o Croquis Cafe diariamente como aquecimento pro dia de estudos e trabalho, ou simplesmente como meu estudo principal, em dias mais atarefados nos quais não tenho conseguido tirar um tempo pra desenhar.

E aí, que tal inserir esses exercícios na sua rotina também? Se você se animar, conta pra gente nos comentários como tem sido sua experiência!

Um abraço e até a semana que vem!

Art & Fear

Em Outubro de 2016, quando falei sobre minha última mudança de residência, comentei que estava lendo um livro intitulado “Art & Fear: Observations on the Perils (and Rewards) of Artmaking” (em tradução livre, algo como, Arte e Medo: Observações sobre os Perigos (e Recompenças) da Arte, ou da criação artística). Agora, quase dois anos depois, finalmente terminei de ler.

Esse livro foi como um abraço pra mim em diversos momentos. Embora não contenha na sua ficha catalográfica o termo “auto-ajuda”, ele traz discussões que, sim, nos ajudam, a compreender as questões que concernem o fazer artístico de forma que é praticamente impossível não se identificar com o conteúdo em maior ou menor grau. De autoria de David Bayles e Ted Orland (dois fotógrafos), Art and Fear se divide em duas partes, a primeira dedicada a definir onde os problemas residem e a segunda dedicada a explorar a relação entre a criação e os meios externos (o mundo exterior, a academia, escola, faculdade, etc).

Algumas pessoas podem se perguntar, o que eu vi de tão bom nesse livro. Eu vi explicações plausíveis, vindas de pessoas que entendem de perto os problemas vivenciados pelo meio, de coisas que eu sinto com relação ao meu trabalho, e consegui compreender a razão de muitos dos meus comportamentos como, por exemplo, não terminar alguns trabalhos, procrastinar, medo de me expor, me comparar com outros e tantas outras posturas nocivas que assumimos por vezes até sem perceber.

Respostas definitivas pra todos os problemas do meio, isso certamente o livro não tem. Mas ele oferece ótimas colocações pra que qualquer pessoa que queira se dedicar à criação artística consiga sair do “bloqueio”, partindo do pressuposto de que arte é uma habilidade que pode ser polida e adquirida com disciplina e tempo, e que não há nada hoje que nos impeça de executarmos nosso melhor trabalho.

Acho que o cultivo de uma mentalidade positiva é muito importante, vivo falando a esse respeito pras outras pessoas, outros colegas artistas, mas quando se trata de mim mesma, deixo de praticar muitas das coisas que falo. Nesse sentido, aprender a perceber esses comportamentos prejudiciais, é o primeiro passo pra que possamos aplicar uma mudança real e começar a cultivar bons hábitos, e esse livro foi ótimo pra mim nesse aspecto.

Infelizmente, não existe versão do livro em português. Na Amazon Brasil você encontra cópia física e ebook, e edições em inglês e alemão.

Se interessou? Eu recomendo muito essa leitura! Se você chegar a ler, ou se já leu, comenta aí o que achou, se o livro te ajudou e como ajudou! Vou adorar ouvir a experiência de vocês.

Um abraço e até a próxima

Processo de Fanart Parte 2 – Cores

Oi galera! Voltei hoje pra que possamos finalizar a discussão sobre o processo que norteou a criação da minha fanart do Greg falando de cores.

Recapitulando, meu desenho retrata de uma cena do episódio “Story for Steven”, na qual Mr. Universe canta a música “Comet”, então não só as minhas referências pra poses e trejeitos do personagem saíram de lá, mas também as referências pras as cores.

Depois de assistir algumas vezes consecutivas o clipe, percebi que haviam dois possíveis caminhos em termos de paleta: uma com um aspecto mais “universo” e outra com a iluminação de palco. Eu gosto do tema“universo”, porque combina muito com o personagem (pô, o nome do CD dele era “Space Train to the Cosmos”!!!), mas o contraste da paleta de palco me chamou mais a atenção.

Space Train to the Cosmos – Mr. Universe, captura de tela do episódio.
As duas paletas que dispunha como referência. Em cima a de luzes no palco, embaixo a que me remete ao universo.

De posse de algumas capturas de tela, meu trabalho foi mais tentar reproduzir as cores que eu via, começando do cenário e partindo pro personagem. Nesse momento do processo, é importante que estejamos atentos ao modo como as cores do entorno (cenário) influenciam na nossa percepção das cores do objeto de estudo (personagem).

Vejam no exemplo abaixo, algumas referências de folhas de modelo do Steven. Vocês podem ver como são as cores dele em uma iluminação comum, e variações de cores na paleta base dele, influenciadas diretamente pelo cenário no qual a história se desenrola.

Essas são folhas de modelo (model sheets), uma espécie de desenho técnico que registra informações dos elementos do desenho pra que toda a equipe de animação possa reproduzir. A primeira da esquerda pra direita mostra o giro (ou turn around) do Steven acompanhado de algumas expressões, enquanto as demais são demonstrações de como a paleta dele se comporta sob a luz de um cenário específico a algum episódio. Essas imagens são propriedade do Cartoon Network e do “Crewniverse”, e podem ser acessadas na Steven Universe Wiki.

Existem várias formas de aplicar essas variações em um personagem. No meu caso fiz assim: busquei uma folha de modelos do Greg pra ter uma ideia de como eram as cores base dele (cabelo, tom de pele, roupas) e por cima apliquei uma camada de cor em modo “multiply” de forma a influenciar com os tons do meu cenário as sombras do personagem. Mas que cor, Joyce? Bom, o meu cenário tem uma passagem de tons que vai do roxo ao branco, passando por laranja e amarelo. O laranja, amarelo e branco são parte da luz, logo sobra o roxo pra sombra, então foi essa que eu escolhi pra aplicar sobre o personagem. E o amarelo claro, quase branco, foi o que eu usei pra fazer a luz, bem dura mesmo, pra destacar o personagem do fundo.

Detalhe da cor que usei como sombra numa camada em modo multiply. Caso queiram testar, o código da cor é #ba7093.

 

Detalhe da cor que usei como luz, dessa vez em uma camada no modo normal. Caso queiram testar, o código da cor é #f6e7d0.

Depois foi só brincar um pouco com alguns detalhes, como suavizar aqui e ali algumas passagens de cor, pra ajudar na percepção do volume das formas, adicionar brilhos e reflexos, “fumaça” no fundo e algumas “partículas” no ar.

Caso vocês estejam se perguntando, nenhuma parte do processo desse desenho sequer viu o Photoshop. Foi tudo feito no Clip Studio Paint (Manga Studio). Se alguém quiser saber mais detalhes sobre o processo, qualquer coisa que eu tenha deixado de cobrir com meu texto, os comentários estão em aberto! Vou ficar muito contente em esclarecer qualquer dúvida.

A você que leu até aqui, espero que tenha apreciado o conteúdo e muito obrigada pela sua visita.

Sábado que vem eu volto, com um conteúdo diferente. Até lá!

Processo de Fanart Parte 1 – Estrutura

Alô pessoal! Conforme prometido na semana passada, vim hoje contar um pouco sobre como nasceu essa fanart do Greg Universe.

I am a comet!!!

Eu sou fã de Steven Universo, caso você não tenha percebido, e desde que a trilha sonora ficou disponível no Spotify eu a ouço com alguma frequência! Como boa fã de rock dos anos 80, uma das minhas músicas favoritas é “Comet”, que o Greg Canta num dos últimos episódios da primeira temporada, intitulado “Story for Steven”. Ao ouvir a música num dia qualquer me bateu aquela vontade enorme de desenhar o Greg jovem, sabe como é?

Daí abri o episódio, fiquei assistindo as cenas e, no meu caderninho, no meio de outros rabiscos, com a esferográfica mesmo, comecei a planejar algumas coisas tendo como apoio a música e as cenas. Minha percepção estava completamente focada em observar as expressões faciais e corporais que o Greg fazia durante o clipe, as cores e o cenário (ou a ausência dele).

Scan do caderninho, onde vocês podem ver todos os estudos que fiz pra chegar no meu desenho. Em azul, estudos de pose, em roxo, estudos das expressões faciais, em verde, estudo de composição em miniatura e, finalmente, em vermelho, a pose que eu levei pro desenho final.

Ainda nessa etapa, eu decidi o gestual que ia aplicar à pose do meu desenho e parti pra um estudo mais aprofundado no computador. As etapas desse estudo, entre o rascunho inicial e o final estão logo abaixo. Observem como o primeiro rabisco é muito mais intuitivo e tenta exprimir mais energia e movimento ao desenho. Em cima disso fui definindo melhor as formas, conferindo ao meu desenho características que o fariam parecido com o Greg, hahaha.

Nº1 transpondo pro digital a pose que eu planejei no caderno. Nº2 primeira passagem em cima do desenho livre pra definir melhor as formas do personagem.

 

Segunda passagem sobre o rascunho de Nº2, definindo e refinando cada vez mais o desenho.

Quando cheguei ao final desse rascunho, estava um tanto satisfeita, com o processo, mas achei a pose estava com uma silhueta meio confusa, então fiz algumas derivações pra ver se havia melhora e, com uma ajudinha dos universitários, cheguei enfim à pose final.

Na silhueta 1 é difícil ler os braços do personagem, fica tudo muito “preso” dentro da massa do corpo dele. Nas silhuetas 2 e 3 o que mudam é basicamente a forma do cabelo, rumo a um recorte mais simplificado da forma externa.

A partir daí foi definir melhor o rascunho em mais umas passagens, e depois partir pra acabamento de linhas e cores.

Rascunho tendo como base a silhueta de número 3.

 

Rascunho final, precursor do acabamento de linhas. Sim, eu prefiro dar acabamento aos desenhos quando estão mais limpos.

Essa última etapa do processo (cores) eu vou deixar pra próxima, senão vou me estender demais! Não percam o próximo capítulo nessa mesma hora, nesse mesmo canal!